quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Rota de fuga: Barra Longa quer estrada para escapar da Samarco

Entrada de Barra Longa ficou tomada pela lama em 2015. Ponte Quindumba é o único acesso pavimentado para o centro da cidade. Foto: David da Silva – 21.out.2017
David da Silva

O prefeito Fernando José Carneiro Magalhães, que na época administrava Barra Longa, conversava numa boa com Antonio Alcides, secretário de Administração e Meio Ambiente, na porta do Bar do Nô às nove e meia da noite de 5 de novembro de 2015. O papo tranquilo foi interrompido por um taxista esbaforido que perguntou se estavam sabendo do estouro de uma barragem em Mariana, a 60 km dali. Ninguém no bar tinha assistido ao Jornal Nacional. “Ninguém ligou pra mim, nem da Samarco nem da prefeitura de Mariana”, disse o prefeito. O comandante do destacamento local da PM, sargento Brandão, que passava ali na frente do boteco, também acalmou a todos: não tinha recebido nenhum alerta dos bombeiros. Horas depois um tsunami de lama com mais de 3 metros de altura invadiu a praça principal da cidade.
Não teve para onde correr. A entrada da zona urbana é um gargalo, com a Ponte Quindumba muito estreita - um veículo por vez. Barra Longa ficou ilhada.

É para evitar surpresas como esta que o povo de Barra Longa quer a pavimentação de uma estrada rural de 27 km com saída para o município vizinho Ponte Nova. A única via asfaltada de acesso a Barra Longa dá de cara com o trajeto que a lamaceira percorreu naquela trágica quinta-feira. Se a Barragem de Germano também se romper, Barra Longa ficará isolada no lamaçal.

Dois meses depois do estouro da Barragem do Fundão, que despejou 62 bilhões de m³ de lama com rejeitos de minérios pela região, os barra-longuenses passaram por outro sufoco. Em 27 de janeiro de 2016 soou na mina da Samarco o alerta de que o remanescente de lama vazou. Era alarme falso. Mas o susto é bom professor. A Samarco apresentou um Plano de Emergência, onde constava o asfaltamento da via rural de 27 km de acesso à cidade vizinha.
Via rural de Barra Longa a Ponte Nova

Em novembro de 2016 a Samarco realizou um simulado de plano de fuga em caso de novo rompimento de barragem. Mas o asfalto da via rural foi retirado da proposta de reparações da mineradora para com suas vítimas.
“Faz sentido um Plano de Fuga que desconsidera que os moradores ficarão isolados caso a barragem estoure? Curiosamente, depois que levantamos esta questão após a primeira simulação, este assunto desapareceu”, denuncia o cantor e compositor Fafá da Barra, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em Barra Longa.
O tema é um dos assuntos discutidos nas reuniões da Comissão de Atingidos e Atingidas organizadas pelo MAB com a presença do Ministério Público Federal (MPF).
O compositor resume bem o sentimento dos habitantes locais na atualidade: “Essa lama foi um monstro que a gente não sabia onde estava escondido. A gente não tinha noção do perigo que é uma barragem de minério em cima de nós”
A estreitíssima Ponte Quindumba é a única entrada com asfalto para a zona urbana de Barra Longa

Lenda do Caboclo D’Água foi engolida pela lama da Samarco

Depois do lamaçal da Samarco em Barra Longa, todos os dias Seu Felipe vai até a beira do rio para ver se seu amigo esquisito reaparece. Foto: David da Silva – 19.out.2017
David da Silva

Pensei que ao chegar em Barra Longa eu fosse recebido pelo Caboclo D’Água logo na entrada da cidade. Mas só fui encontrá-lo quatro dias depois, na beira do Rio do Carmo. Principal personagem do folclore barra-longuense, ele ganhou um monumento no portal do perímetro urbano do município. Mas o pedestal com sua estátua está vazio. A escultura sofreu rachaduras, e aguarda restauração. O guardião da tradição do Caboclo D’Água em Barra Longa é o senhor Antonio Felipe de Rezende, de 89 anos, a única pessoa que já ‘conversou’ com a mítica figura.
Estátua do Caboclo baseada em retratos falados
Foto: Maria Paola de Salvo
Caboclo D’Água é um elemento da identidade cultural típica dos povos ribeirinhos. Funciona como um disciplinador de comportamentos. Para evitar que seus filhos morram afogados, pais e mães põem medo na cabeça das crianças: “Se você for nadar, o caboclo vai te puxar pro fundo do rio”.
O retrato falado do Caboclo D’Água em Barra Longa foi desenhado com base em relatos colhidos pelo chargista e ilustrador Deivison Silvestre. A representação gráfica serviu de modelo para o artista plástico Ayrton Pyrtz fazer a estátua do caboclo com dois metros de altura.
Não foi tarefa fácil materializar em obra de arte uma aparição descrita em diferentes versões como um ser coberto de escamas com pelos, e aparência híbrida de anfíbio parecido com ave e jeito de macaco com cara de dinossauro.
Quem já escutou o som emitido pelo bicho, diz que é parecido ao barulho de helicóptero misturado com rugidos de tigres dentro de uma caverna.
Se algumas pessoas juram ter visto o Caboclo D’Água, Seu Antonio Felipe garante que este ser sobrenatural só aparece para ele: “O caboclo me jurou de pé junto que nunca vai deixar ninguém ver ele. Só eu. Se alguém disser por ai que também viu o Caboclo D’água pode ter certeza que não é o verdadeiro”.

Antonio Felipe, 89 anos, único em Barra Longa 
que já ‘conversou’ com o Caboclo D’Água
Foto: David da Silva – 19.out.2017
Amizade esquisita

A intimidade do Seu Antonio Felipe com o Caboclo D’Água remonta aos seus tempos de criança: “Uma vez quando eu era pequeno, na beira do Rio do Carmo, lá pras bandas da fazenda do meu pai, eu vi uma coisa pequena descendo rio abaixo, bem rapidinho, na correnteza. Perguntei pro meu pai o que era, e ele disse: ‘é o dedo do Caboclo D’Água’ [para não ser visto, o caboclo vai sempre por debaixo da água, só com um dedo pra fora]. Desse dia em diante o Caboclo D’Água não me deu mais sossego”, diz com resignação risonha.
Antonio Felipe completou 89 anos no último dia 1º de outubro. Nasceu na localidade Floresta, distrito de Barra Longa. Nestes quase 90 anos nunca pôs os pés fora do município.
Eu encontrei o veterano contador de ‘causos’ na margem do Rio do Carmo no dia 19 do mês passado. Todos os dias Seu Antonio Felipe vai até a beira do rio por volta do meio-dia – é a hora em que o Caboclo D’Água gosta de aparecer.
O folclórico personagem tem temperamento difícil, diz o narrador: “Mas com o tempo ele foi acostumando comigo, tomando confiança. Se mostrando aos poucos. Hoje somos meio amigos. Amizade esquisita, mas é amizade. Vive me vigiando por aí, fazendo eu passar um aperto danado. Vira e mexe aparece. Tem hora que tá brabo, tem hora que tá bonzinho”.
O sol quente de Barra Longa nos empurra para a sombra, mas Seu Antonio Felipe não perde o fio da história: “Ele é meio estranho. Uma coisa misturada de gente com assombração. Não dá pra dizer direito como ele é. Nem a cor. Parece cor de burro fugido. É grande, meio magro, desengonçado”.
O velho narrador relembra dos seus tempos no garimpo
Foto: David da Silva
O olhar saudoso de Antonio Felipe se espicha para o meio do rio: “Essa praça aqui onde a gente está era a ‘prainha’. O povo tirava muito ouro aí do rio”. Pergunto se a exclusividade que o Caboclo D’Água lhe dá nas aparições é boa ou ruim: “Muita gente caçoa da história. O caboclo gosta de me ver passar por mentiroso”.
A lamaceira da Samarco que detonou Barra Longa mexeu com os brios do Caboclo D’Água: “Esses tempos atrás ele tava meio nervoso”, conta Seu Felipe. “Veio com um jeito todo estranho, querendo explicar alguma coisa. Mas eu não tava entendendo nada. Ficou nervoso e me atacou”.
O velho levanta a barra da calça e me mostra a cicatriz: “O Caboclo me deu uma mordida na perna que custou muitos dias pra curar”. Por causa da mudança agressiva de temperamento do seu estranho amigo, Seu Felipe treinou um cachorro para caçá-lo: “Depois da lama o Caboclo tá demorando pra aparecer”.
Barra Longa agora vive o temor popular que o Caboclo D’Água tenha morrido no lamaçal que a Samarco despejou na cidade.

Mas dias depois do meu encontro com Seu Felipe, tomando uma pinga na bodega ao lado da Ponte Quindumba um cidadão me falou: “No dia da lama passou aí no meio do rio uma touceira de bambus. A touceira sozinha. Foi até lá em cima na Capela Velha. Depois a touceira voltou, desceu o rio”.
Com marcas da lama da Samarco, monumento ao personagem-símbolo da cidade precisa de restauração
Foto: David da Silva - 21.out.2017

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Depois da avalanche de lama, onda de assaltos impactou Barra Longa

Banco do Brasil vai fechar sua agência em Barra Longa no próximo dia 20 de novembro. Também vítima de assalto, Correios ameaça sair da cidade.
Foto: David da Silva – 18.out.2017
David da Silva

Número de habitantes em queda, e números da violência em alta. Esta a equação incômoda que torna ainda mais incerto o futuro próximo de Barra Longa, município da Zona da Mata no Estado de Minas Gerais. Se os índices do IBGE e os da Segurança Pública seguem rotas opostas, para os jovens do lugar o caminho é um só: ir embora.
A avalanche de lama com rejeitos de minérios que a Samarco despejou em Barra Longa em novembro de 2015, trouxe em seu rastro um crescimento no número de assaltos naquele rincão. Na zona rural de Barra Longa, onde mora 62% da população, a vida segue bucólica. Mas, na área urbana de apenas 2 mil habitantes a violência provocou a saída da sua única agência bancária. No próximo dia 20 o Banco do Brasil fecha as portas em Barra Longa.
Um população flutuante, com cerca de 1.000 operários da Samarco que trabalham nas obras de recuperação, esquentou o comércio local. Os ladrões vão atrás desta novidade.

Sustos e lembranças

Durante a última semana de outubro fiquei em Barra Longa na “Pousada da Selma”. É a dona da pousada quem conta: “Aqui já tivemos agências do Banco Nacional, do banco Minas Caixa e do Banco do Brasil. Todas as pessoas de Acaiaca e de Diogo de Vasconcelos [municípios vizinhos] vinham movimentar suas contas aqui em Barra Longa. Os outros bancos já foram embora, e agora vamos perder o Banco do Brasil”, lamenta Selma Sampaio de Freitas, de 78 anos.
O primeiro susto do pós-lama veio em 5 de maio de 2016, exatamente seis meses depois que a cidade acordou apavorada com a montanha de lixo da Samarco em sua praça central. Os caixas eletrônicos do Banco do Brasil foram explodidos. Na ocasião os ladrões não conseguiram levar o dinheiro, pois a explosão foi insuficiente para arrebentar o cofre.
Pelo que veremos a seguir, tudo leva a crer que os bandidos juraram vingança.

O mês de julho de 2017 colocou Barra Longa definitivamente no mapa da insegurança mineira. No dia 6 daquele mês, a agência do Correios foi assaltada às 8h da manhã.
Dois dias depois, na madrugada de 8 de julho dona Selma Freitas estranhou a movimentação na praça da Matriz. “Eram muitas motos, uma quantidade enorme de motos. Até que uma caminhonete parou e desceu um homem com fuzil. Eu vi uma moça correndo na direção oposta dos ladrões, mas nunca fiquei sabendo quem era ela”, relata. A quadrilha fez reféns os boêmios de um boteco acordado até àquela hora, 3h30 da madrugada, bem em frente à agência do Banco do Brasil.
Consumado o assalto, a pacata Barra Longa virou cena de cinema. “Nunca vi uma coisa daquela”, recorda Selma Freitas. “Os ladrões ficaram aqui na praça Matriz em frente da igreja, empinando as motos, comemorando. Depois foram para outra pracinha mais abaixo,  girando com motos e carros, atirando para cima”. Antes de ir embora com a grana, os ladrões se divertiram dando tiros em transformadores elétricos, deixando a cidade às escuras.
No dia 14 daquele mesmo mês de julho um bando encapuzado roubou um supermercado local às 8h da manhã, levando grande soma em dinheiro e mercadorias.

She’s living home

A população de Barra Longa diminui ano a ano. Se em 2010 o Censo do IBGE apontou 7.553 habitantes, em 2016 o número de moradores caiu para 6.143. Neste ano de 2017, a estimativa reduziu para 5.624 pessoas – destas, apenas 38% moram na região urbana.

A falta de ensino de curso superior e empregos mais rentáveis, provoca evasão da juventude barra-longuense. “Quando atingem a idade de trabalhar, eles [os jovens] são obrigados a abandonar as famílias para buscar emprego em outras cidades. É um problema antigo”, se conforma o prefeito Elísio Barreto (PMDB).

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Para devolver máquina de lavar, Samarco forçou idosa a provar que não pode torcer roupas

A mineradora tentou ainda enganar dona Cenita com uma máquina de capacidade menor
David da Silva

Dona Cenita e seu Chiquinho mal tiveram tempo de agarrar rapidamente os patos e as galinhas e o cachorro e correr com eles para a parte alta do quintal quando a lama chegou. Mas carregar no braço máquina de lavar roupas é impossível para uma senhora de 69 anos com osteoporose e um senhor de 71 anos com sequelas de um derrame cerebral.
Dois anos atrás, na madrugada de 6 de novembro, o motorista de caminhão aposentado Francisco Marcelino Romualdo e sua esposa Teófila Siqueira Pereira Romualdo, a Cenita, não acharam que o lamaçal fosse chegar na casa onde moram há 30 anos no bairro Morro Vermelho, em Barra Longa (MG). “A maior enchente aqui foi em 1996, mas só chegou perto da primeira coluna da casa”, relata Chiquinho. Dona Cenita não esconde a emoção ao lembrar: “Estava a maior confusão na rua, gente gritando, carro, buzina. Naquela hora Chiquinho já estava dormindo e eu, rezando”. Às 3h25 a lama entrou com seu cortejo de destruição em Barra Longa.
No bairro Morro Vermelho 20 casas foram desocupadas por medida de segurança e três, condenadas. Cenita e Chiquinho tiveram de se mudar da sua residência de cinco cômodos para uma casa alugada pela Samarco. Problema maior era lavar roupas. A máquina de lavar foi detonada pela lamaceira.
Dona Cenita não viu outro jeito senão cobrar da Samarco o prejuízo que a mineradora lhe causou.
Chiquinho mostra o quintal destroçado pela lama
Fotos: Thiago Alves

Sem força pra torcer roupas

No ano 2000 dona Cenita descobriu que sofre de osteoporose. Em 2006 Chiquinho teve um AVC (acidente vascular cerebral) e ficou com dificuldades de mexer o braço esquerdo. Não bastassem essas mazelas na vida dos dois, a Samarco enviou uma assistente social à casa deles com uma missão perversa. “A assistente falou que a Samarco mandou eu provar que não tenho força nos braços para torcer as roupas na mão. Caso contrário a empresa não ia autorizar comprar máquina nova pra mim”, conta a moradora.
Humilhada a provar sua doença nos ossos, Cenita pediu laudo médico e entregou à assistente social. “Quando foi no dia 17 de dezembro [mais de um mês depois de perder a lavadora para a lama], a Samarco me mandou outra máquina. Mas eu não aceitei”, diz a dona-de-casa. A máquina de lavar de Cenita era de 15 quilos, e a mineradora queria lhe entregar uma máquina com capacidade para oito quilos.
O caso foi parar no Movimento dos Atingidos por Barragens e virou notícia de jornal. Um dia depois a Samarco mandou entregar a nova lavadora de roupas. “Eu achei até estranho eles trazer a máquina em plena nove horas da noite”, diz com fina ironia e emenda outra bronca:
"Não é igualzinha à antiga porque o bojo da minha era de inox. A que mandaram é bojo de plástico. Falaram que não estavam encontrando a de inox...”.

Brigas novas e antigas
                                          
Não foi a primeira vez que esse casal de idosos teve de brigar por seus direitos. Quando se aposentou em outubro de 1996 como funcionário da Prefeitura de Barra Longa, Chiquinho teve somados seu tempo de servidor público municipal, e o tempo em que trabalhou na roça.
Só que no ano seguinte o prefeito de Barra Longa cancelou a aposentadoria de Chiquinho, alegando que não deveriam ter sido contados o tempo de serviço na prefeitura junto com o tempo de trabalhador rural. Chiquinho entrou na Justiça, e ganhou a causa.
Mesmo assim, a sentença favorável só saiu em 2009.

Samarco ofereceu indenização de R$ 0,33 a agricultor atingido pela lama

Lama engoliu casas e propriedades agrícolas em Gesteira, distrito de Barra Longa (MG).
Na foto abaixo à direita, casa erguida em pilares contra enchentes teve lama na altura das janelas. 

Foto: David da Silva - 17.out.2017
David da Silva

Uma das táticas da mineradora Samarco para negociar com atingidos pela lama em Barra Longa (MG) era conversar com cada família isoladamente, evitando negociações coletivas. Foi o caso de um agricultor de 69 anos, morador do distrito Gesteira Velho, a 15 km do centro daquela cidade. Sua propriedade de 1.000 m² foi completamente coberta pela lama na madrugada de 6 de novembro de 2015. A lama com rejeitos de minérios provinha da Barragem de Fundão que estourou no dia anterior, a 60 km de distância. O lamaçal chegou a oito metros de altura em Gesteira.
Para pagar os prejuízos das vítimas, foi criado o Programa de Indenização Mediada. “O problema é que cada família preenchia sozinha, sem nenhum acompanhamento técnico, um formulário enviado pela Samarco com perguntas complexas”, aponta Thiago Alves, do Movimento dos Atingidos por Barragens. Além de não contar com ajuda de pessoas mais esclarecidas quando preenchiam os formulários, as vítimas também tinham de ir sozinhas ao escritório da Samarco em Barra Longa.
Escritório da Samarco em Barra Longa. O nome
"Fundação Renova" é fachada para negociar com vítimas
Foto: David da Silva - 21.out.2017

Arapuca

Com o caderno de respostas na mão, o casal de idosos foi à Samarco. “Levaram a gente de carro até lá”, conta a mulher de 64 anos. Os técnicos da mineradora entregaram a eles uma folha com proposta de valores a serem pagos tanto pelo terreno quanto pela plantação perdida.
A Samarco é controlada pela BHP Billiton, maior mineradora do mundo. Mesmo assim ofereceram uma indenização miserável. “Queriam pagar 33 centavos para cada touceira de cana que eu perdi. E os pés de mandioca queriam pagar só R$ 1,19 (um real e dezenove centavos) cada pé. Minhas canas davam 3 metros de altura. E um pé de mandioca não dá só um quilo. Tem deles que dá 20 kg”, critica o agricultor.
Em resumo, tudo somado, pela plantação perdida de mandioca, cana, mamão, laranja, tangerina, limão, feijão, e milho, incluindo o valor do terreno a Samarco ofereceu menos de 8 mil reais.
O casal mora em Gesteira há 45 anos. “Nada do que a gente planta é para vender. É consumo nosso”, afirma.
O mais grave da proposta indecente fica para o fim. Caso aceitasse o acordo, o casal de idosos ficaria sem a terra onde vivem há quase meio século.
A proposta para os atingidos de Gesteira Velho é ter suas casas reconstruídas em outro terreno, próximo ao rio Gualaxo do Norte onde sempre viveram.

O reassentamento destas vítimas está previsto apenas para o final de 2019.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Gualaxo do Norte: o rio que mal nasce, começa a morrer

Com 60 quilômetros de comprimento, este rio está morto em 48 quilômetros da sua extensão
Rio Gualaxo do Norte já sofria degradação causada pela mineração e venenos agrícolas. Suas águas hoje contêm substâncias prejudiciais à vida dos peixes e dos humanos. A flora subaquática está totalmente destruída.  
Foto: David da Silva – 20.out.2017

David da Silva

Contar a história da cidade de Barra Longa (MG) é contar a história dos seus rios. Se hoje sua base econômica é a pecuária leiteira, foi o garimpo do ouro que atraiu as primeiras pessoas para a região onde o Rio do Carmo se encontra com o rio Gualaxo do Norte. 
O próprio nome do município vem deste fenômeno geográfico. As águas do Carmo ‘caminham’ juntas sem se misturar com as do Gualaxo por um trecho muito longo – vem daí: Barra Longa.
O Gualaxo foi a viatura líquida que primeiro recebeu a lama com rejeitos de minérios despejada pela Samarco no dia 5 de novembro de 2015. O impacto foi tão forte que ao cair no leito deste rio a lama alcançou 15 metros de altura, e subiu seis quilômetros na contracorrente.
Nos trechos mais estreitos do rio, o lamaçal atingiu 40 metros de altura; nos lugares mais planos, se esparramou por um quilômetro de largura. O mar de lama demorou 12 horas para ir da Barragem de Fundão até Barra Longa, cerca de 60 quilômetros de distância.
A Samarco não enviou nenhuma mensagem aos barra-longuenses avisando-lhes que a marcha fúnebre da lama avançava sobre o município.
As águas limpas do Rio do Carmo (à esquerda na foto) 
‘lutaram’ com a lama  trazida pelo rio Gualaxo do Norte. 
A imundície venceu.
Foto: Gustavo Basso – 07.nov.2016
Ao desembocar no Rio do Carmo, o Gualaxo do Norte empurrou a carga lamacenta rio acima. “Quando o Gualaxo despejou a lama aqui, a lamaceira foi tão brava que ela subiu dois quilômetros até o lugar chamado Capela Velha, e a água ficou represada mais uns três quilômetros aí pra cima”, relembra o taxista Darci Humberto de Castro, de 54 anos, natural de Barra Longa.
A região de Barra Longa mais devastada pela lama transportada pelo Gualaxo do Norte foi a zona rural Gesteira Velho. Durante todo o tempo em que circulei por este distrito a 15 km do centro, só vi funcionários da Samarco fazendo reparos em fazendas de grandes proprietários. Os agricultores humildes do Gesteira Velho esperam até hoje a indenização por perderem suas plantações e suas poucas cabeças de gado. Moram em casas de parentes ou de aluguel pago pela mineradora. O reassentamento total dessas famílias desabrigadas só vai acontecer em 2019.

Embarcação pirata de garimpo presa pela PM 
em Barra Longa no mês de fevereiro de 2017. 
A garimpagem do ouro envenena o curso d’água 
com mercúrio e arsênico que contaminam 
as pessoas. Foto: Polícia Militar/MG
Envenenado no berço

Uma das maiores autoridades científicas sobre o rio Gualaxo do Norte, a professora Adivane Costa ensina que antes mesmo do desastre-crime da Samarco, este rio já era um cadáver.
Seus estudos detectaram altos índices de amina, substância cancerígena usada no beneficiamento do ferro. Também encontrou na água do Gualaxo substâncias que diminuem o nível de oxigênio e impede a existência de peixes.
"A soda cáustica, a amida e a amina são solúveis na água; nenhuma barragem consegue contê-los", explica Adivane.

Condenado ao nascer

Ao sair da sua nascente, o rio Gualaxo do Norte não demora mais do que 500 metros para entrar na mina Timbopeba. Percorre seis quilômetros dentro da mina que funciona dia e noite. Dali são mais seis quilômetros até o local onde recebeu toda a imundícia dos 62 bilhões de metros cúbicos de lama com lixo da mineração. O pouco que ainda há de vida no Gualaxo está aprisionado nestes 12 quilômetros.
Relatórios sobre a atual condição do Gualaxo do Norte citam que ele está com produtos químicos prejudiciais tanto aos peixes quanto aos humanos.
A pesquisadora Flora Juncá faz um prognóstico sombrio: “Há indícios de que pessoas estão sendo contaminadas. O problema da contaminação por metais é que a maioria das pessoas só vai ter sintomas daqui a 15, 20 anos”.

Quando o corpo humano acumula muitos metais, pode gerar mal de Parkinson, úlceras, câncer de pulmão. O chumbo fica retido nas articulações, podendo causar paralisia. Outros metais encontrados no rio Gualaxo do Norte podem prejudicar o sistema digestivo, e causar danos ao sistema nervoso.
A lama da Samarco terminou de matar o pouco de vida que ainda resistia no rio Gualaxo do Norte. 
Foto: Dante Pavan

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Crônicas do Lamaçal: Barra Longa é logo ali

Na 5ª-feira passada, 19 de outubro, funcionários e maquinário da Samarco na praça principal de Barra Longa. Os efeitos do lamaçal que encobriu a cidade ainda impactam a população. As indenizações por danos ainda estão em andamento. Foto: David da Silva
Lama atingiu 3m de altura. Foto: Arquivo
David da Silva

Cheguei à cidade de Barra
Longa, em Minas Gerais, 32 horas depois de ter saído de Taboão da Serra (SP). Não há ônibus direto de São Paulo para lá. Vai-se primeiro a Ponte Nova (12 horas de percurso) de onde sai um ônibus para Acaiaca, e em seguida outro, para o destino final. Tive de ficar uma noite inteira e metade de um dia em Ponte Nova à espera do coletivo para concluir a viagem.
As 12 horas que demorei no trajeto de SP a Ponte Nova, foi o mesmo tempo que a lama da mineradora Samarco levou para ir da barragem que estourou até Barra Longa. Com a diferença que alguém sabia que eu estava indo. Já a lama chegou a Barra Longa sem a Samarco avisar ninguém naquela cidade.
Permaneci cinco dias em Barra Longa, da 3ª-feira 17 de outubro até o sábado seguinte. Dois anos depois de ser atingida pelo lamaçal que escapou da barragem de Fundão em 2015, a tragédia ainda é visível na localidade. Barra Longa foi a única cidade com seu centro urbano atingido pelos detritos da Samarco Mineração S/A. Foi o maior desastre ambiental da história do Brasil, e a maior desgraça da mineração mundial nos últimos 100 anos.
No caule das árvores o cal branco tenta esconder a altura que a lama alcançou.
Foto: David da Silva - 17.out.2017

Foto: Arquivo - Novembro de 2015
Daqui a 11 dias vai completar 24 meses que o centro de Barra Longa foi coberto por uma lameira que em certas partes do município chegou a oito metros de altura. Ainda há casas para reformar ou reconstruir devido ao abalo que sofreram pela força da lama. Dos 62 bilhões de m³ de lama vazados, uma quantidade incalculável deste material percorreu os 60 km que separam Barra Longa da barragem de Fundão. No caminho da destruição, a lama com rejeitos de minério dizimou propriedades agrícolas, engoliu casas, matou pessoas e causou dano aos rios e à floresta.
Dona Geralda contempla o monte de lama tóxica transferida para os
fundos de sua residência. Foto: Movimento Atingidos por Barragens
A praça central de Barra Longa foi devastada por mais de meio milhão de metros cúbicos de lama com rejeitos de minério. Grande parte desta lamaceira tóxica foi criminosamente removida da região da cidade onde moram famílias de melhor poder aquisitivo, para a comunidade Volta da Capela, de moradores de baixa renda.
Na comunidade de Gesteira Velho, distrito a 15 km do centro de Barra Longa, nenhuma das famílias foi indenizada até hoje pela perda de suas casas, de seus gados e plantações. A reconstrução da capela local, que é patrimônio cultural nacional, está com as obras paralisadas. As crianças foram transferidas para uma escola feita com paredes de PVC (plástico!).
Força da lama carregou o teto da escola em Gesteira Velho. A laje não foi encontrada. Na parede da capela, a marca da altura da lama. Foto: David da Silva - 20.out.2017
Lama impregnada no caule mostra a altura que a 
torrente de rejeitos atingiu na zona rural de Barra Longa 
às margens do rio Gualaxo. Foto: David da Silva - 20.out.2017
Além dos danos materiais, o lamaçal da Samarco arrastou para Barra Longa doenças respiratórias devido à poeira originada da lama depois de seca, inflamações de olhos, infecções de pele, 3.000% de aumento nos casos de dengue, além de transtornos mentais e transtornos de comportamento.
A violência urbana em Barra Longa também cresceu. No próximo 20 de novembro a agência do Banco do Brasil vai embora da cidade depois de sofrer três assaltos, dois deles no primeiro semestre de 2017. A agência do Correios, também assaltada em julho deste ano, promete seguir o mesmo caminho.
Igreja Matriz de São José de Barra Longa, construída em 1774
Foto: David da Silva - 18.out.2017

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Sarau em Taboão da Serra abre hoje Feira Literária da Zona Sul paulistana

A Feira Literária da Zona Sul é uma continuação do trabalho iniciado no bar onde nasceu o Sarau do Binho. Na imagem, artistas dançam ao relento na noite em que o boteco morreu. 
Foto: David da Silva – 16.jan.2012
Por David da Silva

Se for medir no mapa, serão centenas de quilômetros quadrados de área de abrangência da 3ª edição da FELIZS (Feira Literária da Zona Sul) que acontece desde hoje, 11 de setembro, até o próximo dia 23. O evento tem sarau poético-musical de abertura na noite desta 2ª-feira no Teatro Clariô, em Taboão da Serra, mas as atividades já estão rolando desde as 10h30 - programação completa no final da postagem. 
O bar do Binho no seu auge, em 2009
Foto: Fábio Braga – 30.nov.2009
As ações da feira estão mais concentradas no eixo da estrada que limita o distrito Campo Limpo, zona sul paulistana, com o município de Taboão da Serra. Mas os tentáculos da FELIZS se estendem até a região de Guarapiranga, a 13 quilômetros de distância do epicentro do evento.

Influência positiva

Iniciativas como a FELIZS (acrônimo que sintetiza a busca do bem-estar e contentamento preconizado pela psicóloga Diane Padial, idealizadora da jornada literária) são importantes dentro do novo conceito de influência e intercâmbio entre os povos. O soft power (poder brando, suave) não leva em conta o poderio econômico e militar de uma nação, mas sim sua capacidade de convencimento pela via pacífica. De 2015, quando a FELIZS foi criada, até este ano, o Brasil perdeu seis posições no ranking internacional do soft power (despencamos do 23º para o 29º lugar). Estamos à frente apenas da Turquia dominada pelo tirano Erdogan.
É preciso resgatar a boa imagem brasileira no sentido de influenciar pessoas pelo poder da criação. A FELIZS é uma amostra de como colocar ações propositivas positivas ao alcance da população, mesmo os residentes nos rincões mais humildes da Grande São Paulo.

Identidade

O mote da FELIZS 2017 é “Onde habita a poesia?”. No ano passado o evento homenageou Raquel Trindade; neste ano homenageia Renato Palmares, residente do bairro Jd Olinda e frequentador assíduo do Sarau do Binho.
Robinson Padial, o Binho, criador do sarau, conta que neste ano será lançado oficialmente o selo literário Sarau do Binho, que na verdade já tem cinco títulos publicados. Nesta 3ª FELIZS em parceria com o Ciclo Contínuo Editorial, haverá o lançamento do livro "Mitos sobre semeaduras e colheitas", primeira obra publicada de Renato Palmares.

Território poético

O boteco do Binho, berço do sarau no distrito do Campo Limpo, funcionou até o ano 2011, quando foi fechado. Mas a atividade cultural não se deteve ante as portas-de-aço arriadas. Faz hoje uma itinerância literária por toda a capital, litoral e interior de São Paulo. O único ponto fixo atual é o Teatro Clariô, em Taboão da Serra, onde o sarau acontece todas as segundas-feiras de cada mês.
Dentro do território de Taboão da Serra, além do sarau oficial de abertura logo mais às 21h no Clariô, a FELIZS 2017 terá atividade na Escola Estadual Francisco D’Amico.
No seu ano inaugural em 2015 a FELIZS contou com 20 editoras independentes. No ano passado, foram 47 editoras e 43 autores independentes.
A participação do público desde a criação da feira vem crescendo. Na primeira edição compareceram cerca de 3 mil pessoas. No ano passado, os organizadores calcularam 6 mil participantes; para este ano, esperam atrair 10 mil pessoas.
FELIZS – Feira Literária da Zona Sul
Siga as atualizações pelo facebook
Programação completa aqui

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Artista de Taboão revoluciona prêmio internacional de desenho de humor

Bruno Hamzagic, bi-campeão no
Salão Mundial de Humor
Por David da Silva

“Isso vai influenciar o resto do mundo”. Esta a previsão do cartunista colombiano Raul Zuleta, membro do júri do 44º Salão Internacional de Humor de Piracicaba, ao se referir ao prêmio de primeiro colocado para o desenhista Bruno Hamzagic, de Taboão da Serra. Foi a primeira vez em um concurso mundial que uma caricatura digital em 3D (três dimensões) leva o maior prêmio. “É um grande precedente, que vai fazer com que a caricatura tridimensional possa correr com mais força e ser incluída em outros concursos”, garante Zuleta. O prêmio foi entregue no último sábado, 26 de agosto.
O ano de 2017 está sendo prodigioso para Bruno Hamzagic (pronuncia-se Râmzaguí). Ganhou prêmios na Itália, na Noruega, menção honrosa na Croácia, entre outras conquistas nacionais. Esta é a segunda vez que ele traz para casa o prêmio máximo do Salão Internacional de Piracicaba – a primeira foi em 2012 (veja a galeria de troféus).
A caricatura campeã de 2012 retratou o trompetista Louis Armstrong. Neste ano, a escultura caricata de Bruno pegou pra cristo o pintor Jackson Pollock.
VEJA A OBRA PREMIADA NO VÍDEO ABAIXO

Humildade gargalhante
Toda vez que gravo entrevista com Bruno Hamzagic, mais da metade do espaço sonoro vem entupido de gargalhadas. Nos nossos bate-papos nas redes sociais, 70% dos textos das mensagens vem com a onomatopeia hahahah. Ri de tudo e de si mesmo. Ri pela boca e pelos dedos enquanto desenha. Ri e ganha prêmios. Só não é premiado nos concursos dos quais não participa.
Caricatura de Sílvio Santos
Bruno e eu somos amigos desde 1998, e sobre ele já publiquei aqui no blog isto e mais isto
Mesmo consagrado duas vezes por um dos mais importantes salões de humor do mundo, ele não se considera caricaturista. “Na real meu trabalho é meio em cima do muro. Não sou um cartunista decente, nem animador decente. Não publico, nem trabalho em grandes empresas de animação. Tenho mais trabalhado com publicidade pra ganhar dindin”, diz com modéstia estóica.
Com 35 anos de idade, Bruno trabalha no estúdio de sua própria residência em Taboão da Serra. “Não dá pra dizer que sou um caricaturista. Trabalho com animação e direção de arte, normalmente para alguma animação e publicidade. Trabalho como freelancer e também executo serviços para um estúdio sueco de animação”, insiste na teimosa discrição.
Um dos seus grandes “baratos” atualmente é a tira digital de humor que atualiza pelo Facebook
CONTINUA DEPOIS DA TIRA

Guerra de gigantes
O cineasta Martin Scorcese
Arrancar um primeiro lugar no Salão Internacional de Piracicaba é luta de titãs. Na edição deste ano, foram inscritos 2.985 trabalhos de 560 artistas de 57 países. O artista taboanense sagrou-se campeão em duas categorias.
A relação dos vencedores é um mapa-múndi. Na sequência do brasileiro Bruno, o primeiro lugar em cartum foi para a Áustria, o prêmio charge foi para Cuba, e na categoria tira o troféu foi para o Usbequistão.
O corpo de jurados tinha integrantes da França, México, Colômbia e Brasil. Na lista de menções honrosas, vi nomes do Irã, Portugal, Turquia, Sérvia, Canadá, Romênia, Montenegro, Espanha, Argentina e Croácia.
Apesar desta grande multiplicidade de nações, Bruno pisa com firmeza no chão do Salão piracicabano. Além dos prêmios máximos em 2017 e 2012, ele venceu também o de melhor caricatura em 2013, e ficou em segundo lugar em caricatura em 2001.

Pingos de tinta e palito de churrasco
Bruno venceu na caricatura e no Grande Prêmio 
A obra campeã de Bruno Hamzagic custou-lhe quatro semanas de trabalho. “Tudo começou numa ideia que apareceu na minha cabeça, passou por rascunhos em um skechbook, dias de escultura digital e, depois de impresso, recebeu acabamento de lixa, cola, primer, tinta, pincel e palito de churrasco", relata.
O uso do palito de churrasco na escultura foi meio uma reverência ao método de Pollock, que usava pedaços de pau para lançar tinta na tela.
Na mesma linha profética do colega colombiano citado no início desta matéria, o caricaturista Arturo Kemchs, do México, prevê que “essa determinação dos jurados [ao premiar Bruno Hamzagic com sua escultura digital tridimensional] vai abrir espaço para a arte em 3D em outros concursos do mundo”.

O Salão Internacional de Humor é realizado pela Prefeitura de Piracicaba, por meio da Secretaria de Cultura e Turismo.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A guardiã das memórias da Paixão de Cristo em Taboão

Por David da Silva

Therezinha Pires Pazini fotografada por Rogério Gonzaga
Ela tem o mesmo nome da santa padroeira da cidade. Mas não ia à igreja atrás de beatitudes. “Eu gostava de ir lá por causa do grupo de teatro”, conta Therezinha Pires Pazini, que fez o papel de Virgem Maria na primeira montagem da Paixão de Cristo de Taboão da Serra em 1956. Nascida aqui no município, Therezinha tinha 21 anos quando entrou pela primeira vez na Igreja (hoje Santuário) Santa Terezinha, levada pela insistência da irmã Izabel. Lá conheceu Mário Pazini, com quem se casaria anos depois. Nos seis primeiros anos deste espetáculo, Mário e Therezinha dividiram o palco – ele no papel de Jesus. O personagem foi transmitido ao filho Mário Pazini Junior, de quem Therezinha estava grávida de um mês em abril de 1962, quando interpretou Maria pela última vez.  Hoje, aos 81 anos, ela se dedica ao artesanato; expõe há 36 anos na feira dos artistas em Embu das Artes.
Mário Pazini Junior, que repetiu a marca do pai e interpretou Cristo também por seis anos (em 2000, 2002, 2003, 2004, 2005 e 2006), faleceu em março de 2012 aos 51 anos de idade. Ele será o homenageado da Paixão de Cristo/2017, data da 61ª apresentação ininterrupta deste evento criado por Manoel da Nova.

Paixão pelo teatro

Com sinceridade típica, dona Therezinha revela: “Na verdade [quando adolescente] eu não gostava de nada aqui no Taboão. Passava reto (risos). Minha irmã pertencia ao teatrinho da igreja. Pra agradar ela, fui lá ver. Foi quando conheci o Mário [Pazini, pai] que fazia parte deste grupo”, relata Therezinha enquanto acaricia o gatinho deitado em sua coxa esquerda.
Na parte dos fundos da igreja havia um salão onde Manoel da Nova montava pequenas peças de teatro. “Neste salão tinha o barzinho e o palco. Era sempre o mesmo grupinho [de atores amadores], mas a cada domingo, uma peça diferente”. Foi deste pequeno núcleo que Manoel da Nova germinou a ideia de montar a Paixão de Cristo.
A apresentação se dava totalmente dentro do galpão. “Até a Ressurreição era tudo no próprio salão. Abria o [chão do] palco e o Cristo subia”, relembra com gestos largos. Um ano depois da estreia, o espetáculo passou a ter a Via Crúcis, que se deslocava até o Morro do Cristo, a centenas de metros da igreja. A ideia foi um sucesso, e este grupo inicial chegou a se apresentar em Franco da Rocha, município da Grande São Paulo.

Fatos pitorescos da Paixão

Manoel da Nova, que já tinha experiência em artes cênicas, sempre foi exigente com a qualidade da Paixão de Cristo encenada em Taboão da Serra.
Therezinha relata um fato pitoresco de uma das apresentações pioneiras. “Certa vez o Manoel da Nova estava descontente com o ator que fazia o papel de Pilatos. Estava fazendo tudo errado, e o Manoel falou: ‘Vou dar com o martelo na tua cabeça!’ (risos). Só que isto que o Manoel falou saiu no microfone, e todo mundo na platéia ouviu a bronca que ele estava dando no ator (mais risos)”.
As encenações de primeira viagem também tiveram seus instantes de pânico. “Teve a vez em que o rapaz que interpretava Judas quase se enforcou de verdade. Ele queria fazer tudo tão perfeito, que quase morreu pendurado na corda”.
Um momento de tragicomédia envolveu Mário Pazini, pai, no papel de Cristo. Fala Therezinha: “O Manoel da Nova trouxe sangue cenográfico para a cena em que o soldado romano lanceta Jesus. Mas fizeram uma maquiagem tão perfeita, tão resistente, que na primeira estocada a bolsinha com sangue artístico não estourou. Daí o ator que fazia o soldado romano deu uma espetada mais forte, e o ‘sangue’ jorrou. Meu cunhado Nelson que também atuava na peça pensou que o ferimento foi de verdade, que meu marido teve realmente a carne furada pela lança. E foi pra cima querendo bater no ator que interpretava o soldado” (risos).

Telma Pazini - Foto: Rogério Gonzaga
Paixão em família

Telma, irmã de Mário Junior, descreve em cores vivas como a Paixão de Cristo em Taboão da Serra permeia a vida da família Pazini. “A história de Cristo para a gente é como se fosse uma coisa da família. Como se pertencesse a nós. Crescemos ouvindo o pai e a mãe sempre falando da Encenação. Este é um legado que sempre procuramos passar para as novas gerações. Não dá para desvincular a história da Paixão de Cristo da história da nossa família”, diz Telma. “Até quando assistimos filmes ou peças de teatro sobre Jesus, é sempre com um olhar crítico, porque conhecemos o assunto a fundo”, diz Telma recostada à estante onde o retrato de seu irmão está na prateleira mais alta.
Dona Therezinha passeia o olhar pela sala como se o ambiente estivesse lotado de parentes. “Vinha todo mundo aqui pra casa. Dois meses antes do espetáculo era aquele sufoco. Nós do grupo de teatro da igreja é quem fazíamos de tudo. Vestimenta dos personagens, aquelas roupas vistosas dos guardas, das mulheres. Até o cenário era a gente quem montava. Tudo”, relembra acrescentando que membros da família que moravam longe vinham todos para a sua casa, para seguirem juntos ao local da Encenação. “O espetáculo da Paixão de Cristo sempre foi uma festa aqui em casa”, arremata Telma.
A apresentação de 1962 misturou o relato bíblico à própria história de vida de Therezinha. “Cada vez que eu fazia a Virgem Maria era sempre uma nova emoção”. Mas foi especial quando, antes mesmo de nascer, Mario Pazini Junior já estava no palco, na barriga da mãe, como o Menino Jesus.

Paixão de pai para filho

Telma conta que por certo período Manoel da Nova ficou afastado da Paixão de Cristo em Taboão. Outras pessoas tocaram o espetáculo. Tempos depois, Da Nova retomou a atividade e convidou Mário Pazini Junior, o Marinho, para integrar-se ao elenco. “Mas o Marinho recusou, talvez por não se sentir preparado para aquele desafio”, lembra a irmã.

O espetáculo foi comandado por Manoel da Nova até 1993. A morte da esposa abalou o veterano amante do teatro. E ele passou o fardo da Paixão de Cristo para Amaral Alves, que por sua vez legou a tarefa a um grupo teatral coordenado por Zé Maria de Lucena que já fazia trabalho semelhante desde 1979 numa comunidade católica na região do Pirajuçara. Por esta época, o espetáculo já era apresentado na escadaria do Cemur (um mix de centro de recreação com espaço para Cultura).

Quando enfim se sentiu pronto a assumir o lugar do pai na cruz, Marinho fez questão de ir ao palco com os mesmos adereços usados por Mário Pazini, pai.
“O Marinho passou a utilizar a mesma coroa de espinhos que meu marido usava”, diz Therezinha. “A coroa estava guardada com o Manoel da Nova, e ele entregou para o Marinho. Hoje esta coroa de espinhos deve estar no Teatro Clariô que ele fundou”.
Para a cena da crucificação, Marinho também quis ficar da mesma forma que o pai, sustentado pelos dedos enfiados em uma argola pregada na cruz. “Ele usou o mesmo simulacro de prego cravado na palma da mão, que dava um realismo muito grande”, enfatiza Therezinha.
Na sua primeira apresentação como Cristo, Mário Pazini Junior desceu da cruz com câimbras. “Fazia muito frio, e o sermão do padre no intervalo do espetáculo foi muito demorado”, relata Telma. A irmã observa que Marinho queria fazer tudo exatamente como o pai. “Só que ele não atentou para o fato de que não tinha o mesmo preparo físico do meu pai, que era caminhoneiro”, diz Telma. “O padre deveria ser mais breve, e entender que enquanto ele falava tinha uma pessoa pendurada pelos dedos na cruz”, critica a mãe.

A paixão de Mário Pazini Junior pelas artes sempre foi visceral. “Ele chegou a repetir de ano no colegial por causa dessas coisas de montar eventos culturais na Escola Estadual Wandick de Freitas”, diz Therezinha referindo-se ao colégio onde Marinho cursou o segundo grau.
Telma lembra com orgulho indisfarçado um grande feito do irmão. “O Marinho organizou um festival de música na escola, e este festival cresceu tanto com a participação de alunos de outras unidades de ensino que a finalíssima do concurso teve de ser feita no Cemur lotado”, relata Telma.
A opção definitiva pelo palco se deu quando, aos 16 anos, Mário Pazini Junior ingressou no Teatro Tesol, no curso de palhaço. Começava ali a carreira que o consagraria como o ator e diretor teatral mais emblemático da história de Taboão da Serra, com vários prêmios como os da Cia Paulista de Teatro, Prêmio Myriam Muniz, entre outros. No ano anterior à morte de Marinho, o Grupo Clariô, fundado por ele e sua mulher Naruna Costa, ganhou o Prêmio Governador do Estado.

Paixão pela Cultura popular

Como bom descendente de italianos, Mário Pazini Junior criou uma metáfora culinária que hoje serve de paradigma aos seus colegas de palco e de cruz na defesa da Cultura. Usei esta frase no diploma de honra ao mérito que será entregue a dona Therezinha nesta Sexta-feira da Paixão:
“Se somos ‘massa’, nosso fermento é bom e, um dia, a borda desta ‘pizza’ vai crescer tanto, que deixará de ser margem e o centro estará em toda parte”
É no clima desta frase profética que artistas e público da Paixão de Cristo renderão um tributo à memória de Marinho.