quarta-feira, 12 de abril de 2017

A guardiã das memórias da Paixão de Cristo em Taboão

Por David da Silva

Therezinha Pires Pazini fotografada por Rogério Gonzaga
Ela tem o mesmo nome da santa padroeira da cidade. Mas não ia à igreja atrás de beatitudes. “Eu gostava de ir lá por causa do grupo de teatro”, conta Therezinha Pires Pazini, que fez o papel de Virgem Maria na primeira montagem da Paixão de Cristo de Taboão da Serra em 1956. Nascida aqui no município, Therezinha tinha 21 anos quando entrou pela primeira vez na Igreja (hoje Santuário) Santa Terezinha, levada pela insistência da irmã Izabel. Lá conheceu Mário Pazini, com quem se casaria anos depois. Nos seis primeiros anos deste espetáculo, Mário e Therezinha dividiram o palco – ele no papel de Jesus. O personagem foi transmitido ao filho Mário Pazini Junior, de quem Therezinha estava grávida de um mês em abril de 1962, quando interpretou Maria pela última vez.  Hoje, aos 81 anos, ela se dedica ao artesanato; expõe há 36 anos na feira dos artistas em Embu das Artes.
Mário Pazini Junior, que repetiu a marca do pai e interpretou Cristo também por seis anos (em 2000, 2002, 2003, 2004, 2005 e 2006), faleceu em março de 2012 aos 51 anos de idade. Ele será o homenageado da Paixão de Cristo/2017, data da 61ª apresentação ininterrupta deste evento criado por Manoel da Nova.

Paixão pelo teatro

Com sinceridade típica, dona Therezinha revela: “Na verdade [quando adolescente] eu não gostava de nada aqui no Taboão. Passava reto (risos). Minha irmã pertencia ao teatrinho da igreja. Pra agradar ela, fui lá ver. Foi quando conheci o Mário [Pazini, pai] que fazia parte deste grupo”, relata Therezinha enquanto acaricia o gatinho deitado em sua coxa esquerda.
Na parte dos fundos da igreja havia um salão onde Manoel da Nova montava pequenas peças de teatro. “Neste salão tinha o barzinho e o palco. Era sempre o mesmo grupinho [de atores amadores], mas a cada domingo, uma peça diferente”. Foi deste pequeno núcleo que Manoel da Nova germinou a ideia de montar a Paixão de Cristo.
A apresentação se dava totalmente dentro do galpão. “Até a Ressurreição era tudo no próprio salão. Abria o [chão do] palco e o Cristo subia”, relembra com gestos largos. Um ano depois da estreia, o espetáculo passou a ter a Via Crúcis, que se deslocava até o Morro do Cristo, a centenas de metros da igreja. A ideia foi um sucesso, e este grupo inicial chegou a se apresentar em Franco da Rocha, município da Grande São Paulo.

Fatos pitorescos da Paixão

Manoel da Nova, que já tinha experiência em artes cênicas, sempre foi exigente com a qualidade da Paixão de Cristo encenada em Taboão da Serra.
Therezinha relata um fato pitoresco de uma das apresentações pioneiras. “Certa vez o Manoel da Nova estava descontente com o ator que fazia o papel de Pilatos. Estava fazendo tudo errado, e o Manoel falou: ‘Vou dar com o martelo na tua cabeça!’ (risos). Só que isto que o Manoel falou saiu no microfone, e todo mundo na platéia ouviu a bronca que ele estava dando no ator (mais risos)”.
As encenações de primeira viagem também tiveram seus instantes de pânico. “Teve a vez em que o rapaz que interpretava Judas quase se enforcou de verdade. Ele queria fazer tudo tão perfeito, que quase morreu pendurado na corda”.
Um momento de tragicomédia envolveu Mário Pazini, pai, no papel de Cristo. Fala Therezinha: “O Manoel da Nova trouxe sangue cenográfico para a cena em que o soldado romano lanceta Jesus. Mas fizeram uma maquiagem tão perfeita, tão resistente, que na primeira estocada a bolsinha com sangue artístico não estourou. Daí o ator que fazia o soldado romano deu uma espetada mais forte, e o ‘sangue’ jorrou. Meu cunhado Nelson que também atuava na peça pensou que o ferimento foi de verdade, que meu marido teve realmente a carne furada pela lança. E foi pra cima querendo bater no ator que interpretava o soldado” (risos).

Telma Pazini - Foto: Rogério Gonzaga
Paixão em família

Telma, irmã de Mário Junior, descreve em cores vivas como a Paixão de Cristo em Taboão da Serra permeia a vida da família Pazini. “A história de Cristo para a gente é como se fosse uma coisa da família. Como se pertencesse a nós. Crescemos ouvindo o pai e a mãe sempre falando da Encenação. Este é um legado que sempre procuramos passar para as novas gerações. Não dá para desvincular a história da Paixão de Cristo da história da nossa família”, diz Telma. “Até quando assistimos filmes ou peças de teatro sobre Jesus, é sempre com um olhar crítico, porque conhecemos o assunto a fundo”, diz Telma recostada à estante onde o retrato de seu irmão está na prateleira mais alta.
Dona Therezinha passeia o olhar pela sala como se o ambiente estivesse lotado de parentes. “Vinha todo mundo aqui pra casa. Dois meses antes do espetáculo era aquele sufoco. Nós do grupo de teatro da igreja é quem fazíamos de tudo. Vestimenta dos personagens, aquelas roupas vistosas dos guardas, das mulheres. Até o cenário era a gente quem montava. Tudo”, relembra acrescentando que membros da família que moravam longe vinham todos para a sua casa, para seguirem juntos ao local da Encenação. “O espetáculo da Paixão de Cristo sempre foi uma festa aqui em casa”, arremata Telma.
A apresentação de 1962 misturou o relato bíblico à própria história de vida de Therezinha. “Cada vez que eu fazia a Virgem Maria era sempre uma nova emoção”. Mas foi especial quando, antes mesmo de nascer, Mario Pazini Junior já estava no palco, na barriga da mãe, como o Menino Jesus.

Paixão de pai para filho

Telma conta que por certo período Manoel da Nova ficou afastado da Paixão de Cristo em Taboão. Outras pessoas tocaram o espetáculo. Tempos depois, Da Nova retomou a atividade e convidou Mário Pazini Junior, o Marinho, para integrar-se ao elenco. “Mas o Marinho recusou, talvez por não se sentir preparado para aquele desafio”, lembra a irmã.

O espetáculo foi comandado por Manoel da Nova até 1993. A morte da esposa abalou o veterano amante do teatro. E ele passou o fardo da Paixão de Cristo para Amaral Alves, que por sua vez legou a tarefa a um grupo teatral coordenado por Zé Maria de Lucena que já fazia trabalho semelhante desde 1979 numa comunidade católica na região do Pirajuçara. Por esta época, o espetáculo já era apresentado na escadaria do Cemur (um mix de centro de recreação com espaço para Cultura).

Quando enfim se sentiu pronto a assumir o lugar do pai na cruz, Marinho fez questão de ir ao palco com os mesmos adereços usados por Mário Pazini, pai.
“O Marinho passou a utilizar a mesma coroa de espinhos que meu marido usava”, diz Therezinha. “A coroa estava guardada com o Manoel da Nova, e ele entregou para o Marinho. Hoje esta coroa de espinhos deve estar no Teatro Clariô que ele fundou”.
Para a cena da crucificação, Marinho também quis ficar da mesma forma que o pai, sustentado pelos dedos enfiados em uma argola pregada na cruz. “Ele usou o mesmo simulacro de prego cravado na palma da mão, que dava um realismo muito grande”, enfatiza Therezinha.
Na sua primeira apresentação como Cristo, Mário Pazini Junior desceu da cruz com câimbras. “Fazia muito frio, e o sermão do padre no intervalo do espetáculo foi muito demorado”, relata Telma. A irmã observa que Marinho queria fazer tudo exatamente como o pai. “Só que ele não atentou para o fato de que não tinha o mesmo preparo físico do meu pai, que era caminhoneiro”, diz Telma. “O padre deveria ser mais breve, e entender que enquanto ele falava tinha uma pessoa pendurada pelos dedos na cruz”, critica a mãe.

A paixão de Mário Pazini Junior pelas artes sempre foi visceral. “Ele chegou a repetir de ano no colegial por causa dessas coisas de montar eventos culturais na Escola Estadual Wandick de Freitas”, diz Therezinha referindo-se ao colégio onde Marinho cursou o segundo grau.
Telma lembra com orgulho indisfarçado um grande feito do irmão. “O Marinho organizou um festival de música na escola, e este festival cresceu tanto com a participação de alunos de outras unidades de ensino que a finalíssima do concurso teve de ser feita no Cemur lotado”, relata Telma.
A opção definitiva pelo palco se deu quando, aos 16 anos, Mário Pazini Junior ingressou no Teatro Tesol, no curso de palhaço. Começava ali a carreira que o consagraria como o ator e diretor teatral mais emblemático da história de Taboão da Serra, com vários prêmios como os da Cia Paulista de Teatro, Prêmio Myriam Muniz, entre outros. No ano anterior à morte de Marinho, o Grupo Clariô, fundado por ele e sua mulher Naruna Costa, ganhou o Prêmio Governador do Estado.

Paixão pela Cultura popular

Como bom descendente de italianos, Mário Pazini Junior criou uma metáfora culinária que hoje serve de paradigma aos seus colegas de palco e de cruz na defesa da Cultura. Usei esta frase no diploma de honra ao mérito que será entregue a dona Therezinha nesta Sexta-feira da Paixão:
“Se somos ‘massa’, nosso fermento é bom e, um dia, a borda desta ‘pizza’ vai crescer tanto, que deixará de ser margem e o centro estará em toda parte”
É no clima desta frase profética que artistas e público da Paixão de Cristo renderão um tributo à memória de Marinho.

terça-feira, 1 de março de 2016

Atriz de Taboão da Serra dirige videoclipe e disputa festival

Babi Soares - Foto: Helynd Feltrin
O que uma pessoa é capaz de fazer para reconquistar o amor de quem lhe mandou embora? 
Até onde um ser humano se submete ao outro para retomar o relacionamento fracassado? 

Esta a reflexão da atriz Babi Soares que dirige um videoclipe para o samba “Chega”, de Mart’nália. 

O roteiro é uma criação em parceria com o fotógrafo Rogério Gonzaga, responsável pelas filmagens e edição. 

O filme disputa o 4º Festival de Clipes e Bandas.

O vencedor será anunciado no próximo domingo, 6 de março, em um grande show no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, com participação da própria cantora, ritmista e compositora Mart’nália, que também integra a comissão julgadora.
Edson Lupe
O videoclipe está acessível para votação popular que se encerra nesta quarta-feira, 2 de março. O vencedor do júri técnico ganhará R$ 4 mil, e o júri popular confere o prêmio de R$ 3 mil.
É a primeira incursão de Babi Soares na direção de um filme. 
Nascida e moradora em Taboão da Serra, a atriz está em cartaz com a peça “A Escada”, de Jorge Andrade, no Teatro Encena. O próprio teatro serviu de locação para as filmagens, também realizadas nas ruas do entorno daquela casa de espetáculos, localizada no limite entre os municípios de Taboão da Serra e a Capital.
Luciana Bejar 

Surpresas e sutilezas

No ano passado Babi Soares já teve o desejo de participar do concurso de videoclipes. Mas não conseguiu entrar em acordo com a pessoa escolhida para dividir com ela a realização. “Já neste ano de 2016 liguei para o fotógrafo Rogério Gonzaga, e houve uma harmonia total na concepção do roteiro, o local da filmagem, o elenco. Foi tudo mil maravilha. É a concretização de um sonho antigo. Sempre pensei em fazer roteiros de filmes, cuidar de cada detalhe das gravações”, conta Babi.
A artista conheceu a música de Mart’nália em 2007. O samba foi gravado originalmente em 2002. 
Rogério Gonzaga
“Como eu já gostava desse samba, quando vi que estava no concurso para videoclipes, as ideias logo surgiram. No clipe a gente trabalha a capacidade de transformação de alguém para ficar com a pessoa amada”, diz Babi. 
O videoclipe reverte a expectativa do público com o desfecho do caso de amor entre um homem e uma mulher. As explosões de sentimentos, a mágoa, a ânsia pelo recomeço, e o final surpreendente ganham cores sutis na direção de Babi Soares e na lente de Rogério Gonzaga.  No elenco trabalham Luciana Bejar, Edson Lupe, e a própria Babi.
Para votar no videoclipe, clique aqui

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Teatro Encena estreia “A Escada”, e sairá em turnê pelo interior de SP

Espetáculo teve plateia sempre lotada na pré-temporada. É necessário fazer reservas.
Foto: Rogério Gonzaga
Quase dá agonia na gente ao ver, nos 95 minutos da peça, o casal de velhinhos subir e descer tantas vezes a escada implacável.
Walter Lins (Francisco) e Zulhie Vieira (Noêmia)
Foto: Orlando Júnior
Eu disse quase.
Mal entramos na sala de espetáculos, o olhar se extasia. 
O cenário literalmente sobe pelas paredes.
A Companhia de Teatro Encena estreia neste sábado, 13 de fevereiro, o espetáculo “A Escada”, do dramaturgo paulista Jorge Andrade. 
A peça já teve uma pré-temporada em novembro último. Sempre com plateia lotada. 
Você não conseguirá assistir se não fizer reserva. 
As sessões acontecerão todos os sábados de fevereiro, e aos sábados e domingos de março e abril.
Diógenes Peixoto (Vicente) e Maira Galvão (Maria Clara)
Além das apresentações na própria sede, a trupe fará turnê por seis cidades do Estado de São Paulo - Barretos, Sertãozinho, Assis, Itapevi, São Roque e Pindamonhangaba.

Isolados de si
O público não percebe a princípio porque o casal de idosos ficou sem teto. Antenor (Orias Elias) e Amélia (Sylvia Malena) vivem de favor nas casas dos quatro filhos. Um mês no apartamento de cada um. Moram todos no mesmo prédio. Entre eles, a escada. Que os desune.
O velho Antenor desperta nos espectadores afeto e antipatia. Dá palpite em tudo. Ofende a todos. É elitista, intriguento. Uma espécie de inferno ambulante.
Jacintho Camarotto (Sérgio) e Vera Barretto (Helena)
Foto: Orlando Júnior
Os filhos tentam manter o velho trancado em casa. Mas como disse o poeta Manoel de Barros, “liberdade caça jeito”. Antenor escapa sempre. Faz fiado nas banquinhas de frutas do bairro. Chega a expulsar pessoas das calçadas das ruas que ele diz que foram (e voltarão a ser) suas.
O velho birrento carrega pra todo canto um documento. Diz ser a prova da herança de sua mulher Amélia, neta de antigos fazendeiros do bairro paulistano do Brás, onde a história se desenrola.

Curiosamente o próprio autor Jorge Andrade foi casado com Helena de Almeida Prado, neta de antigos donos de vastas porções de terras no Brás. 
Orias Elias (Antenor) e Sylvia Malena (Amélia)
Foto: Rogério Gonzaga
Assim como Antenor na ficção, na vida real o avô de Helena lutou por 30 anos na justiça para tentar reaver as propriedades de seus ancestrais.

Os modos e manias terríveis de Antenor despertam tal exasperação, que uma personagem desfere a palavra cruel: “Odeio velhos. Não são vivos nem mortos”.
Mas é impossível não se enternecer quando, no patamar onde a escada se divide em duas, Antenor diz à sua velha Amélia: “É muito difícil morrer. Podia ser tão mais rápido. Tenho a impressão de ter passado a vida morrendo”.

Preconceitos para todos os desgostos
Pense numa espécie de preconceito. 
Qualquer um. 
Discriminação contra idosos, discriminação racial, social, sexual. O ofício secreto do veneno corroendo o amor entre marido e mulher. 
Está tudo lá, no texto.
A língua impiedosa de Antenor cavou a infelicidade de sua neta Lourdes (Paloma de Oliveira). A moça não pôde casar só porque seu pretendente era italiano. 
Babi Soares (Zilda) e Paloma Oliveira (Lourdes)
Foto: Rogério Gonzaga
A outra neta, a fogosa Zilda (Babi Soares) também não escapa à violência verbal do velho. O namorado dela é negro (“O avô dele foi escravo de quem?”, açoita Antenor).
Nem o pobrezinho do porteiro do prédio se salva das preocupações presunçosas do idoso irreverente – “Você é filho de qual família? Você não tem sobrenome? Quem foram seus avós?”.
Uma praga, esse Antenor.
Mas de novo o contraponto se impõe. Os velhos são tratados como trastes. Sem direito a dormir na mesma cama por mais de 30 dias. Nenhum dos filhos pergunta com sinceridade, frente a frente, o que seus pais julgam ser melhor para eles mesmos. Tudo é tramado à meia boca, diálogos enviesados.
O único lugar onde Antenor e Amélia conseguem conversar a sós é na escada. Resta somente ali um pouco da privacidade perdida.
Mas, os velhos pelo menos têm o passado a que se apegar. Os filhos, nem isso. São desgarrados das raízes familiares. Órfãos de um tempo presente pleno de incertezas.
Nada muito diferente do momento vivido pela sociedade brasileira nos dias de hoje.

Cativando plateias
Fundada em 1997, a Cia de Teatro Encena vê a cada dia se avolumar o número de pedidos de reservas para seus espetáculos.
Na divulgação de “A Escada”, a trupe gerou um marketing de guerrilha. Nos teasers comandados por Walter Lins, ator e co-diretor da peça, a curiosidade do público é aguçada com detalhes de cada personagem.

ELENCO em ordem alfabética


Babi Soares fala da sua personagem Zilda:



Cláudio Bovo fala do seu personagem Juca:

Diógenes Peixoto fala do seu personagem Vicente:

Jacintho Camarotto fala do seu personagem Sérgio:

Maira Galvão fala da sua personagem Maria Clara:

Orias Elias fala do seu personagem Antenor:

Paloma de Oliveira fala da sua personagem Lourdes:

Sabinna Di Colluccy fala da sua personagem Lavínia:

Sylvia Malena fala da sua personagem Amélia:

Vera Barretto fala da sua personagem Helena Fausta:

Zulhie Vieira fala da sua personagem Noêmia:

(Parece que aqui se confirmou o velho ditado: “Casa de ferreiro, espeto de pau”. Não encontramos o teaser com o ator Walter Lins falando do seu personagem Francisco. A providenciar)

Serviço:
Espaço Cultural Encena
Quando: 13, 20 e 27 de fevereiro (sábado) às 20h30. Em março e abril, de 5/03 a 17/04, aos sábados às 20h30, e domingos às 19h.
Rua Sargento Estanislau Custódio, 130, Jd. Jussara-Butantã / SP
Quanto: Grátis, com contribuição espontânea
Capacidade: 70 lugares
Duração: 95 minutos
Classificação: 10 anos
Informações: 98336-0546 (Tim) e 2867-4746
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Ficha Técnica
Texto: Jorge Andrade
Direção: Orias Elias
Co-direção: Walter Lins
Iluminação: Vagner Pereira
Musica original: Gustavo Barcamor
Cenário: Orias Elias e Jones Cortez
Figurinos e maquiagem: Walter Lins
Produção: Cia de Teatro Encena

Apoio Institucional: PROAC - Programa de Ação Cultural da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo -  Edital 2015 - Montagem
Elenco fará turnê pelo interior paulista, percorrendo seis cidades. Foto: Divulgação

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Teatro Tesol abre vagas para curso de férias

Daniel Diez - Foto: Jean Grimard
Com 39 anos de atividades em Taboão da Serra, o TESOL (Teatro de Expressão Sol) está com inscrições abertas para o curso de férias. Não há limite de idade. As vagas são para turma de 20 pessoas.
Segundo o diretor Daniel Diez, o curso tem por objetivo “desenvolver a capacidade de expressão por meio de exercícios lúdicos envolvendo corpo, voz, imaginação criativa a fim de ampliar o potencial de comunicação, rompendo as barreiras da inibição, olhando e ouvindo a si próprio e ao outro”.
O curso é indicado para alunos de todos os níveis de ensino, assim como para líderes e gerentes que pretendem buscar uma mudança em suas vidas.
O curso terá a duração de três meses. As aulas acontecerão às terças ou quintas-feiras, no horário das 19h30 às 21h30.
A taxa de matrícula é de R$ 30,00, e as mensalidades também serão de R$ 30,00.

Experiência

Pelo Teatro TESOL já passaram artistas de várias gerações. Um deles foi o renomado ator e diretor Mário Pazini, que interpretou Jesus por vários anos na Paixão de Cristo em Taboão da Serra.
O fundador do TESOL, Daniel Diez, de 80 anos, iniciou no teatro no Peru, onde nasceu. No Brasil Daniel Diez atuou em 1965 na montagem original do espetáculo “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto com músicas de Chico Buarque, sob a direção de Silney Siqueira.
Daniel Diez estudou na Escola de Arte Dramática Alfredo Mesquita, frequentou o Curso de Artes Cênicas da FAAP, e o Centro de Estudo Macunaíma.

Inscrições:
TESOL - TEATRO DE EXPRESSÃO SOL
Rua José Nunes de Oliveira, 73
Bairro Pazini – Taboão da Serra
Fones: 4786-3697 e 97564-4403

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Silvio Modesto e o ultimo show do Cartola

O barbeiro Edgar e o dono do bar Carioca conversam com o sambista Silvio Modesto.
Foto: David da Silva - 28.nov.2015
Passei um sábado com S maiúsculo. S de samba. S de Silvio Modesto.
Convoquei o sambista Silvio Modesto para um bate-papo no Bar do Carioca, na Praça Luis Gonzaga, ao lado do Poupatempo/Pirajuçara. Ele não sabia (e só tá sabendo agora) por que foi convidado pra aquela conversa no amanhecer do último sábado, dia 28. É porque hoje se completam exatos 35 anos do falecimento do compositor Cartola. E eu tinha de reverenciar Cartola na manhã desta segunda-feira. E, enquanto escrevia mentalmente esta homenagem com a antecedência de um sábado, tinha de pegar na mão do homem que marcou o ritmo para Cartola cantar no último show gravado em disco na sua vida.
Silvio Modesto teve a glória de estar no palco com Cartola na sua última apresentação ao vivo. O imortal autor de As Rosas não Falam, de O Mundo é um Moinho, e outras canções que atravessaram gerações, teve seu derradeiro registro sonoro perante uma platéia em 30 de dezembro de 1978, dois anos antes de falecer. Ele morreu em 30 de novembro de 1980, vítima de câncer.

Cartola foi consagrado como autor a partir de 1929, quando “vendeu” seu primeiro samba, gravado por Francisco Alves, “o cantor das multidões”. Na década de 1960, depois de anos no ostracismo em que até o imaginaram morto, Cartola foi “ressuscitado” pelo jornalista Sérgio Porto (o Stanislaw Ponte Preta) e pela cantora Nara Leão. Em 1976, veio a primeira grande vendagem de uma composição de Cartola, na voz de Beth Carvalho.

Recorte de matéria que fiz sobre
Silvio, 12 anos atrás
Silvio Modesto
Se escondi do Silvio Modesto no sábado o porquê da sua convocação ao pé do balcão, ele, todavia não deixou de me surpreender. E ele sempre me surpreende. Anos atrás, fui à sua casa cumprimentá-lo por um aniversário. Ele foi até seus arquivos, e de lá sacou um gravadorzinho com que eu o havia presenteado há mais de década.
No sábado passado, Silvio trazia no bolso o recorte de uma matéria que fiz sobre ele em 2003.
Nossa conversa, escoltada pelo barbeiro Edgar e o dono do bar Carioca, rendeu até o meio da tarde. Além de excelente ritmista e compositor respeitado, Silvio é um grande enfeitiçador de público. Um contador de causos à altura da sua vasta biografia.
Depois do abraço da nossa despedida, e antes de tomarmos a saideira, beijei a mão do Silvio. Ele ficou meio assim... Mas fui-me embora sem lhe dar explicação. Agora ele sabe. Beijei a mão que tocou percussão para Cartola cantar no derradeiro show da sua passagem pela terra.

No disco acompanhado por Evandro e seu Regional (grupo onde Silvio Modesto foi ritmista por 17 anos) Cartola canta como uma entidade. 
Silvio Modesto (à esq.) com colegas músicos que
acompanharam Cartola em 1978
É arrepiante a formosura das suas modulações vocais. A dicção perfeita de Cartola é um encanto à parte, tal o seu apuro em escandir as sílabas. Os arranjos musicais feitos com singela sofisticação, mostram que os acompanhantes tiveram a correta leitura de um homem que estava prestes a cumprir sua missão na forma humana.

As pessoas na plateia, e os músicos no palco, viveram com Cartola naquela noite uma experiência que não se explica com meras palavras.
Gravado em 30/12/1978
Local: Ópera Cabaré – São Paulo (SP)
Voz: Cartola
Bandolim: Evandro do Bandolim
Violão 7 cordas: José Pinheiro
Cavaquinho: Lúcio França
Percussão: Silvio Modesto e José Reli (Zequinha)

00:00 - Alvorada (Carlos Cachaça/Cartola/Hermínio Bello de Carvalho)
03:46 - O mundo é um moinho (Cartola)
07:57 - Sim (Cartola/Oswaldo Martins)
11:46 - Acontece (Cartola)
14:46 - Amor proibido (Cartola)
18:59 - As rosas não falam (Cartola)
22:37 - Verde que te quero rosa (Cartola/Dalmo Castelo)
25:28 - Peito vazio (Cartola/Elton Medeiros)
28:55 - Alegria (Cartola/Gradim)
31:14 - Inverno do meu tempo (Cartola/Roberto Nascimento)
34:18 - O sol nascerá (Cartola/Elton Medeiros)

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A ligação entre Taboão da Serra e o filme concorrente ao Oscar/2016

Edna da Silva, inspiradora do filme
Longa-metragem Que Horas Ela Volta? terá duas apresentações na próxima 3ª-feira no Sesc Campo Limpo

Nenhuma cena do filme Que Horas Ela Volta? foi gravada em Taboão da Serra.
Mas é nesta cidade, no bairro Jardim Sílvio Sampaio, onde mora Zeni Maria de Jesus, 67 anos, em quem foi baseada a personagem Val, interpretada por Regina Casé. Dirigido por Anna Muylaert, o longa-metragem representa o Brasil na disputa por uma vaga ao Oscar 2016.
Se no cinema a dona Zeni é a Val, na vida real a personagem Jéssica é Edna da Silva, 47 anos, filha de dona Zeni.
Sucesso de público, Que Horas Ela Volta? já encostou no meio milhão de espectadores. Até a manhã de ontem, 5ª-feira, o filme havia sido assistido por 498.653 pessoas.
Na próxima 3ª-feira dia 24, o filme será exibido em dois horários no SESC Campo Limpo. 
É a segunda presença deste filme na região. No último 4 de novembro, a diretora Anna Muylaert veio ao bairro Campo Limpo exibir o filme e debater com integrantes da ONG Escola de Notícias, no CITA (Centro Integrado de Todas as Artes).
A inspiração para o filme veio da experiência de vida de Edna da Silva. 
Anna Muylaert (a 2ª agachada da esq. p/ a dir.) em
debate sobre o filme no Campo Limpo, dia 4/11.
“Eu trabalhei muitos anos na casa da Anna [diretora do filme]. Fui babá dos filhos dela”, explica Edna. “Eu contava minhas coisas pra Anna, e ela ficava indignada de eu ter sido arrancada quando ainda era um bebê de perto da minha mãe. Fiquei sem ver minha mãe até meus 17 anos; meu pai me proibia de procurá-la, pois tinha raiva por ela ter se separado dele. A Anna sempre me dizia: ‘Um dia vou fazer um filme contando a tua história’”.

“Vem me buscar, mãe”

Na manhã de uma 2ª-feira em julho de 1985, o telefone toca na casa de número 84 da Rua Samuel Wainer, Jardim Silvio Sampaio, Taboão da Serra. Do outro lado da linha, de um telefone público em Salvador, capital da Bahia, o choro de uma menina desesperada de saudades: “Mãe, vem me buscar; quero ir morar com a senhora”.
Regina Casé faz a personagem Val,
inspirada em dona Zeni, moradora
de Taboão da Serra
Edna tinha um ano de idade quando seus pais se separaram. “Minha mãe veio para São Paulo trabalhar de doméstica, na intenção de voltar e me levar com ela quando se estabilizasse no emprego”, conta. Edna ficou aos cuidados da avó Conceição, mãe de seu pai, já falecida.
O pai, o mascate Arlindo José da Silva, falecido há 15 anos, nunca permitia o contato de mãe e filha. “Era a vingança dele, por conta de ter sido largado por ela. Cresci dizendo a mim mesma: ‘Quando eu ficar maior de idade, vou embora pra junto de minha mãe’. Eu sempre olhava para os retratos dela, sonhando com ela. Quando ela me mandava presentes, por várias vezes meu pai bloqueava. Aconteceu de minha mãe me mandar um brinco, ele pegar primeiro e esconder. Uma coisa de louco”.
Durante toda a adolescência, a garota não pôde sequer ter seus documentos pessoais. “Meu pai escondia minha certidão de nascimento pra eu não tirar RG e carteira de trabalho. Era o jeito dele me manter presa naquela cidade, em Vitória da Conquista sem poder vir para São Paulo atrás da minha mãe”.

Criança cuidando de crianças

Aos 11 anos Edna arranjou emprego de babá.”A gente morava num sítio, longe. Então fui para a cidade trabalhar. Foi meu primeiro ganha-pão. Queria juntar dinheiro para morar com minha mãe. Com aquela idade de 11 anos eu cuidava de três crianças. Não sei quem tomava conta de quem (risos) – a Juliana tinha 7 anos, Pedrinho com 4 anos, e Geórgenes, com um aninho. Trabalhei naquela casa por dois anos e pouco”.
Aos 14-15 anos, Edna teve proposta para trabalhar na capital. “Em Vitória da Conquista, minha tia trabalhava na casa de uma família, onde havia três jovens na faixa dos 14 aos 18 anos que estavam indo estudar em Salvador. A patroa da minha tia precisava de uma pessoa para fazer serviços de casa, cozinhar, lavar roupa, limpar a casa dos três filhos lá na capital. Eu escutei a conversa e me interessei. Pensei: ‘Ôpa! Em Salvador já estou mais próxima de São Paulo, mais perto da minha mãe!’. Minha tia não concordou, porque eu era menor de idade, não tinha nenhum documento, e ela não podia assumir a responsabilidade. Mas eu fiz tanto a cabeça dela, que ela chamou meu pai pra conversar. Sei lá o que meu pai imaginou. Talvez ele tenha pensado que eu indo para Salvador, fosse esquecer o desejo de procurar minha mãe. Mesmo assim, ele não deu a certidão de nascimento na minha mão. Entregou para a minha patroa e ainda recomendou: ‘Não deixa a Edna pegar esse documento de jeito nenhum!’”.

Edna só conheceu a mãe aos 17 anos
Conexão mãe-filha

Em Salvador, por intermédio de parentes, Edna conseguiu o endereço da mãe em Taboão da Serra. Começaram a trocar cartas.
Mas a saudade não cabia nos envelopes do Correio. “A vontade de ver minha mãe era cada vez maior. Daí descobri que ela tinha colocado telefone em casa. Consegui o número com minhas primas”.
A saudade transbordou.
“Saí para a rua, desesperada, segurando na mão o pedaço de papel com o número do telefone. Comprei muitas fichas telefônicas. Nossa, não gosto de me lembrar dessa parte... Muito triste.
Tava me sentindo sozinha num mundão desconhecido, horrível”, narra Edna, e prossegue:
“Grudei no telefone: ‘Mãe. Estou de malas prontas. Vem me buscar agora’.  Lembro que eu chorava muito. Minha mãe também chorava muito.  Ela falou: ‘Calma, calma. Fica tranquila que eu vou te buscar’. Voltei no trabalho, arrumei minhas coisas, não recebi salário, não recebi nada. Só falei pro pessoal da casa: ‘Estou indo embora’. E todo mundo: ‘Mas você não pode. Você é menor de idade. Nem tem documentos!’. Mas eu insisti em ir embora. Eu estava tão louca...”
No final do dia seguinte, uma das filhas da patroa levou Edna à rodoviária. A garota já tinha traçado seu plano de fuga:
“Como eu não conhecia nada em Salvador, resolvi ir para a rodoviária de Vitória da Conquista, que eu já conhecia. E lá eu encontraria minha mãe, que no mesmo dia em que eu liguei, saiu de São Paulo para se encontrar comigo.  Ajustamos os tempos de viagem de cada uma, para dar certo o encontro na rodoviária”.
Edna saiu de Salvador às 22h da 3ª-feira. Sua mãe havia partido de São Paulo às 11h do mesmo dia, com previsão de chegar a Vitória da Conquista às 11h do dia seguinte.
“Cheguei em Vitória da Conquista bem cedo. Não me lembro a hora. Mas fiquei plantada na estação até minha mãe chegar. Quando nos encontramos, foi muito emocionante. Reconheci minha mãe pelas fotos que eu tinha dela”, relembra.
Para se refazer da maratona da viagem e das emoções, dona Zeni propôs à filha descansarem até o dia seguinte. “Me desesperei: ‘Quero ir embora agora! Quero ir embora agora mesmo!’”.
Certamente a menina tinha medo que seu pai descobrisse o encontro das duas. E botasse a perder um projeto acalentado por 16 anos longe dos carinhos da mãe. “Viemos para São Paulo naquela mesma hora. Foi só o tempo de o carro com que minha mãe tinha ido para a Bahia ir na garagem fazer a limpeza, e voltamos no mesmo ônibus”.

A vida na tela

Por pouco tempo Edna ficou na casa da mãe em Taboão da Serra. Dona Zeni havia se casado de novo, três filhos com o segundo marido. “Vieram os atritos com meus irmãos. Rolou muitos ciúmes, eles não me aceitavam”.
O primeiro emprego de Edna em São Paulo foi de copeira na casa do fotógrafo Thomaz Farkas, dono da rede de lojas Fotoptica.
Mesmo na função de copeira por mais de três anos, o DNA de babá falava mais alto na vida de Edna. “Quando iam crianças na casa do seu Thomaz, eu esquecia que era copeira. Fazia muita confusão. Me envolvia com as crianças. Um dia ele me disse: ‘Ô, meu bem. Você não acha que está na profissão errada? Você adora crianças. Tem de ser babá’”.
Edna seguiu o conselho do patrão, empregou-se na casa de outra família como babá por quatro anos e meio. Até que descobriu que o serviço de diarista rendia mais. E foi trabalhar na casa de Anna Muylaert, que já conhecia por ser frequentadora da família Farkas.
 “Na Anna foi muito engraçado”, Edna se diverte com a lembrança. “Outra história bacana. Ela me contratou como diarista. Só que eu não limpava nada (risos). Brincava o dia inteiro com o José, filho dela na época com um ano e dois meses de vida. Um dia a Anna me chamou para conversar. Pensei: ‘Êita, vai me mandar embora...’  Ela me disse já que eu não estava limpando nada na casa, se eu queria cuidar do José. ‘Você não limpa nada aqui. Fica o tempo todo brincando!’. (risos) Mas eu ganhava muita grana como diarista. Tinha clientes para todos os dias da semana; trabalhava até aos sábados. Se ficasse como empregada mensalista, perderia dinheiro. A Anna resolveu me pagar salário mensal igual ao valor que eu ganhava como diarista. Depois do José, nasceu o Joaquim, e trabalhei na casa da Anna por 5 anos, de 1990 a 1994”.
Diretora de fotografia Barbara Alvarez
durante filmagens do longa em Embu das Artes
Por todo este período Anna dizia para Edna: “Um dia eu vou escrever a tua história”.

Pelo mundo afora, Que Horas Ela Volta? leva o título de The Second Mother.
Edna ainda trabalha como “segunda mãe” em casa de família. Mas fez curso de cabeleireira e breve vai montar seu salão no Jardim Nossa Senhora de Fátima, Embu das Artes, onde mora desde o início da década de 1990.
Sua casa e seu bairro foram o cenário para as ações gravadas na periferia.

Serviço:
Dia 24 de novembro (3ª-feira)
Às 18h e às 20h
Exibição do filme
QUE HORAS ELA VOLTA?
(114 minutos)
Entrada grátis
SESC Campo Limpo
Rua Nossa Senhora do Bom Conselho, 120
Ao lado da Estação Metrô Campo Limpo e do Shopping Campo Limpo

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sábado, 14 de novembro de 2015

Matança em Mariana – os alertas do poeta Drummond

Não foi apenas o laudo técnico emitido em outubro de 2013, exatos dois anos antes da catástrofe.
Carlos Drummond de Andrade (31.out.1902 - 17.ago.1987)
Também foram ignorados os sucessivos alertas do poeta Carlos Drummond de Andrade sobre a prática predatória das companhias exploradoras de minérios nas entranhas do Estado de Minas Gerais.
Dois dias antes de falecer, o poeta disse ao repórter Luiz Fernando Emediato: “Minas foi um lugar especial. Hoje não é” (entrevista publicada em 15 de agosto de 1987 no jornal O Estado de São Paulo).
Em 1939, quatro anos depois de se mudar de Minas para o Rio de Janeiro, Drummond escrevia em uma de suas mais importantes obras: 
“De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço: 
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil”
Pelotas de ferro extraídas do lugar da catástrofe
e expunha a simbiose entre as pessoas e o ferro arrancado do subsolo de sua terra natal: 
“Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. 
Noventa por cento de ferro nas calçadas. 
Oitenta por cento de ferro nas almas” 
(Confidência do Itabirano)

Minério e destruição

Era pelas páginas do jornal O Cometa Itabirano que Carlos Drummond despejava suas mais lancinantes preocupações com o destino de sua terra escalavrada. Em 1984 ele publicou no jornal da cidade de Itabira, onde nasceu:
Estátua de Drummond em Itabira (MG). Ao fundo, as
montanhas arranhadas pela exploração do ferro.
“O maior trem do mundo
Puxado por cinco locomotivas a óleo diesel
Engatadas geminadas desembestadas
Leva meu tempo, minha infância, minha vida
Triturada em 163 vagões de minério e destruição”
Em dezembro do ano anterior, Drummond já tinha enviado ao Cometa Itabirano sua poesia mais profética sobre a exploração e a espoliação  pela companhia Vale do Rio Doce (veja abaixo à direita a folha original datilografada pelo próprio Drummond).
Publicado na ed. nº 58 do jornal
O Cometa Itabirano, dez/1983

Lira Itabirana
I
O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.

II
Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!

III
A dívida interna.
A dívida externa
A dívida eterna.

IV
Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

Oito anos antes da publicação do poema acima, Drummond já avisava às futuras gerações:  
“Essa serra tem dono (...) 
Cassetetes e revólveres me barram a subida 
Não mais a natureza a governa (...) 
proibido viver a selvagem intimidade destas pedras
que se vão desfazendo em forma de dinheiro.”
(Triste Horizonte, publicado em 14 de agosto de 1976).

Cidade-monstro
Drummond vaticinou um futuro sombrio para a
sua terra natal, espoliada pelas mineradoras

No dia 13 de maio de 1984, em depoimento ao programa Diálogo, da extinta TV Manchete, Drummond desabafou:
“[Minha cidade de Itabira está] hoje transformada pela Cia. Vale Rio Doce. Acho que é uma cidade “meio-monstro”, né? Ela tinha 4 mil habitantes, agora tem mais de 100 mil, sendo que dez mil estão desempregados. À espera de que a Companhia Vale Rio Doce dê a eles um trabalho qualquer. Está se retirando de Itabira, transferindo-se para Carajás [no Estado do Pará] e vai fazer a mesma coisa que fez no interior de Minas. Vai despojar a terra de sua riqueza e vai exportar isso. Nem sequer aquilo beneficia o Brasil. Beneficia a empresa! E, depois, abandona aqueles buracos!”
Vilarejo de Bento Rodrigues, 
destruído para todo o sempre

Materialização da metáfora

“Mar de lama” é expressão criada em 1954 pelo jornalista e político Carlos Lacerda sobre a corrupção que assola o país. Os 62 milhões de metros cúbicos de lama e água despejados pelo rompimento das barragens Fundão e Santarém transbordam os limites dessa metáfora.
O crime ambiental cometido pela mineradora Vale e sua sócia australiana matou o Rio Doce. E com ele o ecossistema dos 40 municípios banhados por este rio – 29 cidades em Minas Gerais e 11 cidades no Estado do Espírito Santo. O lodaçal assassino está chegando ao litoral capixaba, levando desolação a 60 km por hora.
Tão terrível quanto a agressão à natureza, foi o comportamento da classe política. O governador de Minas provou ser lacaio da empresa. A entrevista coletiva oficial não se deu no Palácio do Governo; ocorreu no escritório da multinacional. A presidente da República demorou sete longos dias para fazer breve sobrevoo na área devastada. Aplicou uma multinha de R$ 250 milhões. A própria Vale estima que vá gastar R$ 2 bilhões em medidas mitigadoras da matança humana e do meio ambiente. A multa governamental é, portanto, de míseros 25% sobre o estrago causado. Uma ação entre amigos.
A omissão da presidência do Brasil não ficou sozinha na parada. O senador mineiro, principal adversário do governo nas últimas eleições presidenciais, também não pôs o pé na lama. Limitou-se a balir: “Não é hora de apontar culpados”...

Em 1973 Drummond publicou o poema A Montanha Pulverizada. Nele o autor revela a angústia de ver as montanhas de Minas Gerais “britadas em bilhões de lascas deslizando em correia transportadora”.
Três anos depois o poeta romperia definitivamente com a capital do lugar onde nasceu:
“Porque não vais a Belo Horizonte? a saudade cicia
e continua branda: Volta lá.
Anda!Volta lá, volta já.
E eu respondo, carrancudo: Não.
Não voltarei para ver o que não merece ser visto...”
Mar de lama liberado pelas barragens da Cia. Vale é o maior crime ambiental da história do Brasil